
Monking: Inovação sem coragem não é inovação

Existe um problema no ecossistema de inovação corporativa brasileiro que ninguém nomeia diretamente, porque nomear exige o que o problema em si exige: coragem.
Não é falta de capital, embora o capital seja escasso. Não é falta de talento, embora o talento esteja concentrado. Não é falta de hubs ou de programas ou de startups dispostas a pilotar. É falta de disposição genuína para mudar, para abrir mão de certezas, alterar hierarquias, redistribuir poder e aceitar que o futuro da empresa não se encaixa nos modelos que a fizeram chegar até aqui.
O medo tem três formas dentro das corporações: medo de crítica, medo da incerteza e medo do impacto na carreira. As três formas coexistem, se alimentam mutuamente e produzem o comportamento que qualquer pessoa que já tentou fazer inovação de verdade dentro de uma grande empresa reconhece imediatamente: todo mundo concorda na sala, ninguém age no corredor. A ideia vai para o comitê, o comitê pede mais dados, os dados chegam no próximo ciclo orçamentário, o próximo ciclo tem outras prioridades. O projeto morre não de rejeição, morre de adiamento eterno. É o que a literatura de inovação chama de purgatório piloto, e é a forma corporativa mais “sofisticada” de dizer não sem assumir o custo político de dizer não.
A alternativa existe, não como modelo teórico, mas como prática operacional demonstrável. Como exemplo, temos a Copa Energia, distribuidora de GLP com mais de sete décadas de história. A empresa incorporou a inovação como um dos seus quatro valores centrais ao lado de determinação, parceria e respeito. Não como programa, hub externo, ou iniciativa do departamento de transformação digital. Na Copa, inovação é um valor que orienta comportamento, decisão e cultura em todos os setores.
O resultado é inovação orgânica, não forçada. É a diferença entre uma empresa que inova, e uma empresa que realiza inovação.

Na minha opinião, há uma grande oportunidade no Web Summit Rio, que é a inspiração. Essa é a hora de levar quem realmente decide dentro da empresa, mas não vive inovação no dia a dia. Lá eles encontrarão exemplos práticos de aplicação, e mais do que isso, resultados que mudaram histórias como as deles.
O que muda quando a coragem aparece
Inovação não é um departamento, não é um método e não é uma parceria com startup. É a decisão coletiva de uma organização de aceitar o desconforto em troca de futuro. Essa decisão não é tomada em workshop de cultura. Não se implementa com estrutura. Não se compra no ecossistema de São Paulo, de Recife ou do Rio de Janeiro. Ela ou existe no centro da empresa, como valor real, praticado na decisão difícil, no orçamento aprovado sem garantia de retorno, no projeto mantido quando o trimestre aperta, ou não existe em lugar nenhum.

Rodrigo Terra, da Monking.

